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Sigo as sombras que se formam no chão

Sinto a fria arma, apontada em vão

O som do impacto ecoa

Assustando a multidão

O tempo congela

No momento do clarão.

O velho gosto de metal

Preenche minha boca

Escorre pelo corpo

Manchando minha roupa.

O que era branco agora é vermelho

O que era esperança virou pesadelo.

De nada mais lembro e nada mais anseio

À medida que os litros jorram

O ar fica rarefeito

À medida que meu corpo esfria

Diminui meu desespero.

Gabriela Maltos

Eu sou chato.

Chato de galochas

Em dia de sol.

Eu tô no ponto.

Ponto de ônibus

Em dia de chuva.

Fui previamente testado.

Com high concept

E low profile

Pronto pra o que der e vier,

Tento sempre ir com a maré

Mas só até onde der pé…

Porque ainda não aprendi a nadar.

Eu sou bravo

Bravo e condecorado,

Em dias nublados.

Eu sou pra frente

Frente a tudo,

Em dias de luto.

Tem dias que não sou nada

Tem dias que quero ser tudo.


Gabriela Maltos

Prometeu a si mesmo

Nunca julgar o livro pela capa

No entanto,

Comprava sempre os menores perfumes.

Prometeu a si mesmo

Nunca jogar conversa fora

No entanto,

Trocava palavras desnecessárias.

Prometeu a si mesmo

Nunca amar ninguém

No entanto,

Amou a primeira mulher que viu na vida.

Prometeu a si mesmo

No fim de todas suas promessas furadas,

Que nenhuma outra promessa faria.

No entanto,

Essa promessa ele deixou de cumprir no mesmo dia.

Gabriela Maltos

Por algum motivo

Me acostumei com sua voz.

Será maior do que tudo?

Mas quanto mede tudo?

Para mim

Você é tudo.

Gabriela Maltos

Eu sou bom. Eu sou mau. Sou e não sou ao mesmo tempo.

Sou viciado, drogado e largado no mundo. Sou nada. Sou tudo.

Sou gente igual a todo mundo. Sou um animal louco e sujo. Sou sempre. Sou nunca.

Se eu fosse eu, gostaria de ser mais eu todo dia. Diferente, porém igual.

Sou foda, sou forte. Sou fraco. Um total fracasso… Orgulho dos pais.

Um completo incapaz. Capaz de errar, eu não aprendo.

Eu sou uma marca, um negócio, uma coisa. Me uso e me vendo só pra comprar os outros.

Eu sou a vida. Eu dou a vida, eu dou a morte. Eu sou a morte. Sou tudo que restou. O resto do resto.

Um completo dislexo no mundo das letras. Um caminho incerto de pseudo certezas.

Eu sou eu, você e mais uma porrada de gente por aí.

Eu sou a voz e o silêncio, no silêncio do prazer. Não sou ninguém senão eu mesmo.

Sou milhares de personas ao mesmo tempo. Sou artista, amante e assassino. Assassino por natureza. Assassino da natureza.

Eu sou isso. Sou aquilo. Sou o que Deus quiser. Um tempero ímpar que dá o gosto final. Que fica na língua, que sempre tange o paladar.

Sou tudo isso e nada disso… Tudo depende da fase da Lua.

Gabriela Maltos

E o resto?


Seria a morte o inicio da vida?
A morte é passagem
Há verdade no fim?
Se não há fim de verdade?

Não tenho medo de morrer
Só não quero estar lá
Quando for acontecer

A morte é um sonho
É um alivio dos males
Pra quem cansou de sofrer
Pra quem cansou de viver

Tolos, aqueles que matam a vida
Com medo da morte
Não terão sorte
Pois o destino é cruel

A morte nos mata
Da vida vivida.
Como seria,
Se não houvesse vida após a morte
E morte após a vida?

Gabriela Maltos

Quando você não dorme, tudo o que você vê, é em câmera lenta. Nada é real. Quanto mais você tenta dormir, menos você consegue. Cada minuto parece infinito. Meus remédios perderam o efeito… Um mais forte que o outro. Nada funciona. Conseqüentemente, eu não funciono.

“Esvazie sua mente. Tente não pensar em nada… Relaxe. Feche os olhos e não pense em nada. Pense em não pensar em nada. Pense em parar de pensar em não pensar em nada. Estou pensando…”

Quando você não dorme, tudo é uma cópia do que aconteceu. É algo parecido com um deja vu. As coisas acontecem numa velocidade inexplicável, você é incapaz de acompanhar. Qualquer luz provoca dor de cabeça… Qualquer som. Chega um tempo que você se torna letárgico. Seus olhos se fecham sozinhos e você perde total controle sobre seu corpo. Começa a pensar que, talvez seja hora de deitar e fechar os olhos de vez. Impor o sono. Tomar o tanto de remédio possível para descansar por um segundo.

O fogo que coça e faz meus olhos lacrimejarem. Fragmentos de impressões que na verdade não existem. Minha mente embaçada. As palavras saem erradas à medida que entram erradas. Posso dizer que não tive uma noite decente de sono há um ano. Hoje faz um mês. Nem uma hora por noite…

A esse ponto, o relógio não é seu amigo. Como disse: cada minuto parece infinito. O “tic” que precede o “tac” sempre demora mais do que o esperado. Uma hora demora uma eternidade para acabar… E na cama, quando você está no limite de conseguir dormir… As horas voam. E o despertador toca.

O fogo que coça e faz meus olhos arderem. Eu quero dormir. E o pior de tudo é que não tem ninguém me impedindo. Ninguém além de mim… Sem dormir você perde a noção do tempo. Não existe dia, não existe noite.

Eu ando sozinha pelas ruas, cambaleando, tentando manter meu corpo reto. Eu vejo vultos. Vejo coisas que não estão lá. Alucinações de uma mente cansada… Eu crio imagens na minha cabeça que um dia irão se virar contra mim.

Visão dupla e embaçada. Zunidos e batidas que criam uma música perturbadora dentro da minha cabeça. Eu vejo o sinal verde quando está vermelho. Eu vejo carros andando quando estão parados. Eu ouço pessoas conversando numa língua diferente… Eu não sei se estou acordada ou sonhando.

Como disse: Chega um momento que você perde controle do seu corpo. Reajo muito depois que as coisas acontecem ao meu redor. E, ao mesmo tempo, se algo acontece apenas na minha imaginação, reajo imediatamente. É como se estivesse num estado de transe. Minha respiração se torna intensa e lenta. Algo que nem eu entendo.

A insônia que me persegue…

Quando você não dorme, nada é real. Tudo é uma cópia de uma cópia da realidade. Tudo o que você vê, é em câmera lenta. E nada… nada funciona.

Gabriela Maltos

Hoje eu acordei com dor nas costas. Sabe aquela dor de cansaço? De mau jeito? Gostaria de pensar que foi porque dormi mal. Mas dormi do mesmo jeito que durmo todas as noites.

Acordei com aquela dor nos olhos… Qualquer luz já me deixava irritada. Acordei rabugenta.

As músicas que geralmente ouço hoje particularmente me davam dor de cabeça. Estavam altas demais pro meu gosto. Pode até ser meu mau-humor matutino. Mas essa hipótese deixa de ser válida depois do almoço. Acordei com dor nos dedos. Queria acreditar que a dor era de tocar violão. Um violão que não praticava há um bom tempo. Senti saudade.

Percebi que estava reclamando demais… Isso é coisa de gente velha. Será que eu estava ficando velha? Naahhh… Não pode ser. É óbvio que o vizinho chato que fica gritando no banheiro incomoda todo mundo. Assim como o cachorro barulhento do prédio da frente que até hoje não aprendeu a ter boas maneiras. A construção do outro lado da rua então, nem se fala. Precisa começar às 7 da manhã e terminar às 20 da noite? Ninguém merece o barulho infernal… Sem falar na sujeira que eles fazem.

É óbvio que o “Você é muito chato” me incomoda. As pessoas não entendem suas razões e seus motivos. Muitas vezes a pessoa que profere essa frase é o verdadeiro detentor da “característica”. Reclama de tudo… Reclama até que você é chato. (Hoje, devo concordar que estou chato por reclamar de tudo, mas só hoje).

É óbvio que ser tratado com falta de respeito me incomoda. Não preciso ouvir palavrões e gritos. Respeito é bom, eu gosto e escovo os dentes.

É óbvio que o “pinga pinga” da torneira da pia (que nunca ninguém se incomoda de fechar direito) me incomoda. Gasta água. Isso não é coisa de gente velha. É claro que gente que usa o banheiro e não dá descarga me incomoda. É falta de higiene. E quando não lavam as mãos? Ai é pedir pra levar uma bica na cara …

Acho que estou ficando velha… Porque quando eu era criança, as coisas não eram assim. Pelo menos não pareciam ser assim. Não estou falando em mudar o mundo, muito menos mudar os hábitos de higiene dos homens do mundo (isso é uma tarefa muito mais complexa). Mas enfim… Estou falando de uma saudade que pode até então não ter existido.

Uma saudade daquilo que não foi, uma saudade daquilo que poderia ter sido. Que quando a gente era pequeno, a gente falava: “Nossa … será que quando a gente crescer vai ser assim também? Todo mundo reclamando da vida agora, dizendo que antes não era assim… Mas quando o agora passa, ele se transforma em “antes” e ai tudo fica bom. Tudo fica… assim.”

Acho difícil de explicar porque nem eu entendo como acontece. É porque nunca nada é bom o bastante pra gente. Talvez quando eu era criança, as coisas eram mais simples. EU acreditava no que EU queria acreditar. E não no que os outros queriam que eu acreditasse. Dá pra ser criança de novo ?

Gabriela Maltos

[Um texto velho do blog Apartamento 52, mas que vale pra começar esse novo blog]

Aqueles dias

A maçante idéia da falta de cafeína no sangue levanta sérias hipóteses de delirantes noites em claro não serem causa do meu problema crônico de insônia e sim a falta de coca-cola. Assim como os dias passam devagar quando não se tem nada pra fazer, e quando se está atrasado dois minutos vão-se no tempo de um.

As coisas mais simples de se montar parecem impossíveis quando se perde o manual de instruções. O último táxi parado sempre está com a luzinha apagada e sempre aparece alguém (do nada) para pegar o que está disponível. O sinal sempre fica verde quando você põe o pé no chão para atravessar a rua.

São aqueles dias que você acorda pensando que o mundo está girando ao contrário. Ou vai ver você está andando na direção oposta. Aqueles dias que você abre os olhos e a força da gravidade fala mais alto. A vontade de ficar deitado na cama é tão grande, mas tão grande… Que você desperta uma depressão até então inexistente.

O despertador toca, e você já meio acordado nem sequer espera ele tocar a segunda vez, já o desliga. Quando vai olhar as horas, pegou no sono e perdeu o horário. Correria, estresse e a causa do mau humor típico de 90% das pessoas numa segunda-feira as sete e quarenta e poucos da manhã.

Justamente nesse momento o sinal fica verde: quando você põe o pé no chão para atravessar a rua. (Lembrando que você está atrasado, e ainda tem que pegar o metrô – que por sinal vai estar lotado – para chegar ao trabalho e levar um esporro do seu chefe.)

E aí você, parado na esquina, esperando o sinal fechar, se encontra com um bando de desconhecidos. Cada um deles com a sua história, com o seu por que. Cada um com sua pressa. Cada um com o seu mundo particular.

E por uma fração de segundo você se desprende do seu corpo e vê essa cena. Uma segunda-feira nublada. Típico dia de São Paulo. Do seu lado esquerdo você vê executivos. Cada um com seu terno, sua mala e seu fone de ouvido. Do seu lado direito você vê alguns estudantes, uma senhora e seu York Shire e um casal de namorados de mãos dadas.

De repente um pequeno sorriso no canto da boca surge desprevenido. Aí você pensa em quão bela a vida é. E pensa naquela música que cairia perfeitamente praquele momento. O sinal abre, e aquele momento passa. Também passam as pessoas desenfreadas na sua frente e você volta subitamente à realidade. Entre empurrões e caras fechadas, você se pega sorrindo novamente, pois sabe que também é assim.

O medo constante do desconhecido nos deixa assim. O medo é a constante que rege, e de certa forma, liga nossas vidas. Medo da morte, medo de ter medo. Aquela mochila pesada que carregamos nas costas. Aquela máscara que colocamos no rosto todos os dias antes de sairmos de casa.

Medo de ser grande. Medo de errar. Medo de conseguir… Medo de seguir o coração e fazer o que acha que é certo. Medo de ser verdadeiro ou medo da verdade. Temos medo sem saber que na verdade não há verdade absoluta, mas sim a nossa própria verdade. A minha verdade, a sua verdade. A verdade interior. Isso é o que realmente importa no final. Como você se sente no fim de tudo. Se todo esse medo que você sentiu valeu a pena ou não.

Eu sinto medo o tempo todo. Medo de não ter tempo, medo de ser grande demais e não conseguir me sustentar depois. Sabe? Quando alguém cria uma expectativa de você, e quando te conhece acaba se arrependendo? Sinto medo de causar esse impacto negativo nas pessoas.

Sinto medo de me envolver demais com alguém. Sinto medo de amar demais alguém. Porque uma coisa é certa nesse mundo: Tudo que vai, volta. Mas se eu nunca amar ninguém, como alguém um dia pode me amar? Se eu ficar pensando demais na vida, ela vai passar diante dos meus olhos e eu não vou viver…

São aquelas coisas de criança. Quando você é pequeno quer ir sempre ao escorregador mais alto. Ai chega ao topo, olha pra baixo e muda de idéia. Quantas vezes já não desistimos de descer o escorregador mais alto por medo de tentar? Ai um dia, você cria aquela coragenzinha, que lá no fundo se mistura com um pouco de vergonha por “não ter ido ao escorregador até hoje” e vai. E você percebe que aquele medo era uma besteira. E percebe que perdeu tanto tempo pensando que fosse se machucar… E ai você vai de novo, e de novo, e de novo… Até cansar.

Hoje estava parada no trânsito e vi uma cena, no mínimo, inusitada. Uma mãe de mãos dadas com seu filho e mais duas amigas conversando, esperando o sinal fechar para atravessar a rua quando outra mulher e sua filhinha se aproximavam. O menino abriu os braços e pulou na frente da menininha. As mães se assustaram, não tinham idéia do que estava acontecendo. Ali ficou claro que as duas não se conheciam. As crianças se abraçaram. Foi um abraço tão puro e carinhoso. Livre de intenções. Foi simplesmente um abraço. As mães abriram um sorriso e seguiram seus caminhos opostos.

O caso não tem muito a ver com medo de tentar, mas nos mostra como somos frios e egoístas hoje. E pensar que em dez, quinze anos aquelas crianças vão andar nas ruas com seus óculos escuros e seus iPods. Nem sequer olhando nos olhos uma das outras. Com tanta coisa boa por aí, tanta gente boa. Tudo que a gente vê é tragédia e maldade. E a gente vai se acostumando… E vai ficando calado, e deixando de se preocupar com o importante.

Eu também já sofri. E ainda sofro. Não é meu sofrimento que faz de mim uma pessoa mais ou menos vivida do que outra. Tenho muitos medos, assim como todo mundo. Todo mundo sente medo porque até onde eu sei, todo mundo é mundo. O que a gente tem que ter é força pra enfrentar esses medos. Não importa o preço a pagar, não importa o que tivermos que sacrificar. Se valeu a pena, foi verdadeiro.

Gabriela Maltos

Obrigada a todos os leitores! :)

Beijos e bom fim de semana!!!

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