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Hoje eu acordei com dor nas costas. Sabe aquela dor de cansaço? De mau jeito? Gostaria de pensar que foi porque dormi mal. Mas dormi do mesmo jeito que durmo todas as noites.

Acordei com aquela dor nos olhos… Qualquer luz já me deixava irritada. Acordei rabugenta.

As músicas que geralmente ouço hoje particularmente me davam dor de cabeça. Estavam altas demais pro meu gosto. Pode até ser meu mau-humor matutino. Mas essa hipótese deixa de ser válida depois do almoço. Acordei com dor nos dedos. Queria acreditar que a dor era de tocar violão. Um violão que não praticava há um bom tempo. Senti saudade.

Percebi que estava reclamando demais… Isso é coisa de gente velha. Será que eu estava ficando velha? Naahhh… Não pode ser. É óbvio que o vizinho chato que fica gritando no banheiro incomoda todo mundo. Assim como o cachorro barulhento do prédio da frente que até hoje não aprendeu a ter boas maneiras. A construção do outro lado da rua então, nem se fala. Precisa começar às 7 da manhã e terminar às 20 da noite? Ninguém merece o barulho infernal… Sem falar na sujeira que eles fazem.

É óbvio que o “Você é muito chato” me incomoda. As pessoas não entendem suas razões e seus motivos. Muitas vezes a pessoa que profere essa frase é o verdadeiro detentor da “característica”. Reclama de tudo… Reclama até que você é chato. (Hoje, devo concordar que estou chato por reclamar de tudo, mas só hoje).

É óbvio que ser tratado com falta de respeito me incomoda. Não preciso ouvir palavrões e gritos. Respeito é bom, eu gosto e escovo os dentes.

É óbvio que o “pinga pinga” da torneira da pia (que nunca ninguém se incomoda de fechar direito) me incomoda. Gasta água. Isso não é coisa de gente velha. É claro que gente que usa o banheiro e não dá descarga me incomoda. É falta de higiene. E quando não lavam as mãos? Ai é pedir pra levar uma bica na cara …

Acho que estou ficando velha… Porque quando eu era criança, as coisas não eram assim. Pelo menos não pareciam ser assim. Não estou falando em mudar o mundo, muito menos mudar os hábitos de higiene dos homens do mundo (isso é uma tarefa muito mais complexa). Mas enfim… Estou falando de uma saudade que pode até então não ter existido.

Uma saudade daquilo que não foi, uma saudade daquilo que poderia ter sido. Que quando a gente era pequeno, a gente falava: “Nossa … será que quando a gente crescer vai ser assim também? Todo mundo reclamando da vida agora, dizendo que antes não era assim… Mas quando o agora passa, ele se transforma em “antes” e ai tudo fica bom. Tudo fica… assim.”

Acho difícil de explicar porque nem eu entendo como acontece. É porque nunca nada é bom o bastante pra gente. Talvez quando eu era criança, as coisas eram mais simples. EU acreditava no que EU queria acreditar. E não no que os outros queriam que eu acreditasse. Dá pra ser criança de novo ?

Gabriela Maltos

DANDO CORDA

O tempo é inimigo
O tempo é infinito
Eu temo o tempo
O tempo todo
Pois de infinito
Já me basta o desgosto
De inimigo
Já me basta o encosto
Me findo no tempo
Pois o tempo me aflige
Me perco no tempo
Pois o tempo é limite
Me acho no tempo
Pois o tempo corrige.

Gabriela Maltos