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Quando você não dorme, tudo o que você vê, é em câmera lenta. Nada é real. Quanto mais você tenta dormir, menos você consegue. Cada minuto parece infinito. Meus remédios perderam o efeito… Um mais forte que o outro. Nada funciona. Conseqüentemente, eu não funciono.
“Esvazie sua mente. Tente não pensar em nada… Relaxe. Feche os olhos e não pense em nada. Pense em não pensar em nada. Pense em parar de pensar em não pensar em nada. Estou pensando…”
Quando você não dorme, tudo é uma cópia do que aconteceu. É algo parecido com um deja vu. As coisas acontecem numa velocidade inexplicável, você é incapaz de acompanhar. Qualquer luz provoca dor de cabeça… Qualquer som. Chega um tempo que você se torna letárgico. Seus olhos se fecham sozinhos e você perde total controle sobre seu corpo. Começa a pensar que, talvez seja hora de deitar e fechar os olhos de vez. Impor o sono. Tomar o tanto de remédio possível para descansar por um segundo.
O fogo que coça e faz meus olhos lacrimejarem. Fragmentos de impressões que na verdade não existem. Minha mente embaçada. As palavras saem erradas à medida que entram erradas. Posso dizer que não tive uma noite decente de sono há um ano. Hoje faz um mês. Nem uma hora por noite…
A esse ponto, o relógio não é seu amigo. Como disse: cada minuto parece infinito. O “tic” que precede o “tac” sempre demora mais do que o esperado. Uma hora demora uma eternidade para acabar… E na cama, quando você está no limite de conseguir dormir… As horas voam. E o despertador toca.
O fogo que coça e faz meus olhos arderem. Eu quero dormir. E o pior de tudo é que não tem ninguém me impedindo. Ninguém além de mim… Sem dormir você perde a noção do tempo. Não existe dia, não existe noite.
Eu ando sozinha pelas ruas, cambaleando, tentando manter meu corpo reto. Eu vejo vultos. Vejo coisas que não estão lá. Alucinações de uma mente cansada… Eu crio imagens na minha cabeça que um dia irão se virar contra mim.
Visão dupla e embaçada. Zunidos e batidas que criam uma música perturbadora dentro da minha cabeça. Eu vejo o sinal verde quando está vermelho. Eu vejo carros andando quando estão parados. Eu ouço pessoas conversando numa língua diferente… Eu não sei se estou acordada ou sonhando.
Como disse: Chega um momento que você perde controle do seu corpo. Reajo muito depois que as coisas acontecem ao meu redor. E, ao mesmo tempo, se algo acontece apenas na minha imaginação, reajo imediatamente. É como se estivesse num estado de transe. Minha respiração se torna intensa e lenta. Algo que nem eu entendo.
A insônia que me persegue…
Quando você não dorme, nada é real. Tudo é uma cópia de uma cópia da realidade. Tudo o que você vê, é em câmera lenta. E nada… nada funciona.
Gabriela Maltos
Hoje eu acordei com dor nas costas. Sabe aquela dor de cansaço? De mau jeito? Gostaria de pensar que foi porque dormi mal. Mas dormi do mesmo jeito que durmo todas as noites.
Acordei com aquela dor nos olhos… Qualquer luz já me deixava irritada. Acordei rabugenta.
As músicas que geralmente ouço hoje particularmente me davam dor de cabeça. Estavam altas demais pro meu gosto. Pode até ser meu mau-humor matutino. Mas essa hipótese deixa de ser válida depois do almoço. Acordei com dor nos dedos. Queria acreditar que a dor era de tocar violão. Um violão que não praticava há um bom tempo. Senti saudade.
Percebi que estava reclamando demais… Isso é coisa de gente velha. Será que eu estava ficando velha? Naahhh… Não pode ser. É óbvio que o vizinho chato que fica gritando no banheiro incomoda todo mundo. Assim como o cachorro barulhento do prédio da frente que até hoje não aprendeu a ter boas maneiras. A construção do outro lado da rua então, nem se fala. Precisa começar às 7 da manhã e terminar às 20 da noite? Ninguém merece o barulho infernal… Sem falar na sujeira que eles fazem.
É óbvio que o “Você é muito chato” me incomoda. As pessoas não entendem suas razões e seus motivos. Muitas vezes a pessoa que profere essa frase é o verdadeiro detentor da “característica”. Reclama de tudo… Reclama até que você é chato. (Hoje, devo concordar que estou chato por reclamar de tudo, mas só hoje).
É óbvio que ser tratado com falta de respeito me incomoda. Não preciso ouvir palavrões e gritos. Respeito é bom, eu gosto e escovo os dentes.
É óbvio que o “pinga pinga” da torneira da pia (que nunca ninguém se incomoda de fechar direito) me incomoda. Gasta água. Isso não é coisa de gente velha. É claro que gente que usa o banheiro e não dá descarga me incomoda. É falta de higiene. E quando não lavam as mãos? Ai é pedir pra levar uma bica na cara …
Acho que estou ficando velha… Porque quando eu era criança, as coisas não eram assim. Pelo menos não pareciam ser assim. Não estou falando em mudar o mundo, muito menos mudar os hábitos de higiene dos homens do mundo (isso é uma tarefa muito mais complexa). Mas enfim… Estou falando de uma saudade que pode até então não ter existido.
Uma saudade daquilo que não foi, uma saudade daquilo que poderia ter sido. Que quando a gente era pequeno, a gente falava: “Nossa … será que quando a gente crescer vai ser assim também? Todo mundo reclamando da vida agora, dizendo que antes não era assim… Mas quando o agora passa, ele se transforma em “antes” e ai tudo fica bom. Tudo fica… assim.”
Acho difícil de explicar porque nem eu entendo como acontece. É porque nunca nada é bom o bastante pra gente. Talvez quando eu era criança, as coisas eram mais simples. EU acreditava no que EU queria acreditar. E não no que os outros queriam que eu acreditasse. Dá pra ser criança de novo ?
Gabriela Maltos
